
Ele é folgado, mal educado, acefalado, perturbado, desarrumado e muitos outros ''ados''! Simplesmente me recuso a estar apaixonada por ele!''
Foi em uma sombria e chuvosa tarde de outono que a minha vida mudou completamente. E, talvez, essa história boba e pegajosa não lhe chame atenção, confesso que nem a mim chamaria.
Há um ano e meio começara a estudar em um colégio novo. Nada muito atrativo... Professores normais, panelinhas, diretor pirado, coordenador desligado, entre outras características comuns.
Eu, que sempre fui a menina prodígio da família, não era de muitos amigos. Estava preocupada demais com meus afazeres para pensar em algo do gênero.
Nunca me importei com apelidos. Afinal, tive que lidar com inúmeros durante minha vida acadêmica. O primeiro por ter o cabelo diferente, depois por começar a usar óculos, o aparelho também não demorou muito para aparecer e logo me transformar na cdf metálica. Porém, esse é um período que eu prefiro deixar escondido nas lembranças mais profundas da minha alma.
Era o último ano do colegial e, em fim, poderia me livrar daquelas criaturas desprovidas de sonhos e aspirações, e juntar-me a seres humanos mais interessantes.
Apesar do clima estar ótimo naquela noite de sexta-feira, juntei-me aos meus livros na biblioteca, para adiantar um pouco os diversos trabalhos para a semana seguinte.
Sentei-me na mesa de costume e iniciei minha jornada intelectual. Meu nível de concentração estava em sua melhor forma, quando um barulho ensurdecedor atingiu todo o recinto. Levantei levemente meus olhos e avistei uma estante inteira abaixo. Livros e mais livros caídos, jogados, mal tratados. O culpado de tal atrocidade estava ali, bem ao lado.
Não sei explicar o que ocorreu naquele momento. Olhei para ele, e tudo aquilo que havia lido nos romances e que jamais cogitei a possibilidade de ser verdadeiro, atingiu-me subitamente. 

Não consegui retirar aquela imagem da minha cabeça, muito menos compreender o que havia acontecido comigo. Ele era muito popular e sempre nos esbarrávamos entre ou durante as aulas. Por que de repente ele simplesmente resolveu grudar em meu cérebro sem previsão para deixá-lo?!
Com o passar do tempo, esse sentimento só foi se intensificando mais e mais. Passava horas a fio planejando argumentos que eu não tinha pretensão de expor.
No entanto, foi na tarde sombria e chuvosa de outono que voltei ao meu eixo.
Eu atravessava a ponte que ligava o pátio a biblioteca, quando um papel amassado me atingiu. Apertei os olhos atrás das lentes para enxergar o autor da brincadeira sem graça. E para minha surpresa, lá estava ele, sorridente como sempre. Desdobrei o papel, e ali encontrei as palavras que me fizeram, finalmente, entender que aquela paixãozinha não iria a lugar algum.
Não lhes diz respeito o que ele disse. Saibam apenas que esse amor que eu pensei sentir, em um determinado momento, expirou.
Os nossos mundos eram completamente diferentes sim. Contudo, não creio que este tenha sido o principal motivo.
Para que haja amor, é necessário reciprocidade, companheirismo, desejo, lealdade e, principalmente, amizade.
Afinal, o que me passou pela cabeça?! Não possuíamos nem o requisito básico...