2.1.12

Bom dia


Acordei com um sonho ruim na cabeça. Daqueles amargos, tristes, que chegamos a sentir o desespero, a tensão no ar. Mas, não quero dizer nada com isso. Longe de mim, acreditar que sonhos são previsões ou algo do gênero. Não tenho muito conhecimento a respeito. No entanto, costumo achar que eles são válvulas de escape do nosso cotidiano. Uma espécie de lugar onde extravasamos todas as nossas raivas, incompreensões, vontades, amores. Onde podemos viver, mesmo que inconscientemente, mesmo que de um jeito irreal, tudo aquilo que desejarmos. Um lugar onde o nosso cérebro descansa do nosso caos diário.

Contudo, hoje não quero falar de sonhos. Quero falar de algo mais singelo, de um gesto que me tirou o fôlego, pela manhã. Eu abria o portão, com olhos tristes, ainda abarrotados pelo sonho conturbado. Já estava ali pensando que este poderia ser mais um daqueles dias de solidão. Não porque eu esteja só, mas porque minha alma se sente solitária. E foi então, que aquele senhor apareceu. Olhou-me por trás dos óculos de grau, com uma inocência tamanha, que quase me pareceu um carinho. Ele caminhava com um ar despreocupado, contente, segurando uma sacola de pão. Nunca o tinha visto antes. Não sei onde ele mora. Mas, hoje passamos de um jeito tão corrido pela vida, que é até provável já tê-lo visto certa vez, mas não ter reparado de verdade.

Ele me olhou dentro dos olhos, poucas pessoas fazem isso. E com aquela simplicidade, desejou-me um bom dia. Foi isso, alguém estranho me dizendo algo simples. Muitos dirão que isso não denota a menor importância. No entanto, naquele momento, foi um gesto de extrema grandeza.

Aquele olhar singelo e aquele cumprimento foram reais. Diferentes do meu sonho. Eles encontraram minha alma solitária e lhe acariciaram. Mostraram a ela que não é preciso de algo grande para sê-lo. Aquele senhor deixou escancarado em seu gesto a necessidade de aprendermos a amar o simples. Talvez o que nos faz sangrar por dentro, o que nos tira a paz, seja justamente não enxergar a beleza, não nos encantarmos mais com os pequenos gestos.
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Sigo, leio e recomendo!