
Nunca tive problemas sérios, sempre andei na linha. Meus pais não tinham do que reclamar, era a filha perfeita. - organizada, responsável, focada nos estudos, de poucas amizades.
Durante todo o ensino médio não tive nenhum namorado, nem pretendia ter, até que o Miguel apareceu em minha história.
Nos conhecemos quando estava no primeiro ano da faculdade. Ele era muito atencioso comigo, sentia-me especial ao lado dele.
Passávamos tardes inteiras no parque estudando, ele me ajudava muito e eu também o ensinava. Era divertido e ao mesmo tempo tentador estar com ele.
Três meses se passaram até que eu desse indícios de que poderia acontecer algo, além de amizade, entre nós.
Apesar das roupas novas que comprei, do perfume provocante que passei a usar, dos bilhetes que lhe mandava durante as aulas e dos telefonemas sem propósito, ele não parecia demonstrar nenhum interesse.
Fingia não me importar, mas por dentro estava queimando de raiva. Éramos o par perfeito, tínhamos todos os motivos para dar certo. Por que ele não se arriscava?! Será que aguardava um passo meu?!
Tive cautela por uma semana inteira. Observei-o de longe todos os dias, afastei-me para ver se ele sentiria minha falta. Nada.
Um mês se passou e nem sinal dele. Durante as aulas que tínhamos juntos ele simplesmente não dirigia nem ao menos o olhar a mim. Pensei ter feito algo errado, que o tivesse afastado de tal maneira e resolvi ir até seu dormitório.
Na noite seguinte fui até lá. Bati na porta, ninguém atendeu. Girei a maçaneta e a porta, outrora estática, escancarou-se.
Chamei por ele. Porém, não obtive nenhuma resposta, a não ser o rangido da janela antiga.
Dei-me a liberdade de vasculhar o quarto a sua procura e, infelizmente, não o encontrei.
Já havia desistido, quando um sentimento estranho me fez retornar e dar atenção ao espelho um tanto sujo e levemente trincado, pendurado na parede em frente a cama. Havia um bilhete apressado nele.
Por um minuto achei que seria melhor sair correndo dali, pois estava invadindo sua privacidade. No entanto, poderia ser apenas um lembrete para o dentista ou o telefone do irmão que mora longe.
Pois bem, eu já estava ali, uma olhadinha não mudaria muita coisa...
Aproximei-me a ponto de conseguir ler.
Eis com o que me deparei:
"Conheço- te como a palma da mão,
Conheço tua curiosidade,
Tua confiança no que queres.
Conheço-te mais do que a mim mesmo,
Conheço tua persistência,
Tua sede de amor."
Depois daquele dia permaneci com a dúvida. Não tive coragem de perguntar a ele sobre nós. Afinal, poderia ser para outra mulher, e eu estragaria ainda mais o resquício do sentimento puro que tínhamos.
No ano seguinte, durante uma aula monótona, jogaram um papel dobrado em minha mesa. Não havia sido feito com muito esmero, mas quando abri, ali estava o que esperei quase dois anos para ler:
"Meus bilhetes no espelho serão eternamente seus, se assim quiseres...
Daquele que sente a sua falta...
Miguel."